Desfecho Romances

Resenha: Apenas respire

17 fevereiro


Título: Apenas Respire
Autora: Rossana Cantarelli Almeida
Editora: Multifoco, Desfecho Romances
Páginas: 476
Ano: 2017

      Como leitora sempre busquei ler os mais diversos gêneros, seja para conhecer, seja por já gostar. Por isso, sempre deixo um espaço reservado para o bom e velho romance, aquele que é capaz de confortar, nos fazer prender a respiração, sofrer junto aos personagens e torcer pelo tão sonhado final feliz. São livros assim que costumam me confortar quando estou passando pela tão temida ‘ressaca literária’ e me ajudam a retornar para a leitura. Foi em uma fase assim que comecei a ler “Apenas Respire”, de forma despretensiosa e quando eu percebi já tinha lido mais da metade do livro e estava ansiosa para saber como seria o desfecho.
      Isabela é uma mulher de trinta e um anos, professora, independente e está prestes a se mudar para Nova York para começar a desenvolver seu doutorado. Sua vida nunca foi um mar de rosas. Por muito tempo teve que atuar na área jurídica, mas não era sua verdadeira paixão e como sempre amou a música acabou cursando uma faculdade na área. Por fim, se estabeleceu como professora universitária no curso de música no Rio de Janeiro. Sua vida sentimental também passou por grandes turbulências, mas o momento atual é de calmaria.
      A mudança para Nova York também foi uma grande surpresa, ela nunca imaginou que teria a chance de observar o processo de criação de um disco da sua banda favorita. Sim, seu doutorado compreende em observar uma banda que sempre admirou  a compor e produzir suas músicas, parece até um sonho. Como você agiria em uma situação como essa? Isabela ainda tem que lidar com a atração que sente pelo guitarrista da banda, digamos que nem tudo é tão simples assim.
       Isabela é uma personagem cheia de nuances, a princípio imaginei-a como uma simples fã de uma banda embarcando em uma aventura e logo em seguida me surpreendi com uma personagem que carregava uma grande bagagem emocional. Em alguns momentos bate aquela vontade de sacudir ela, mas logo em seguida passa, pois suas atitudes mostram independência, mesmo sendo tomada por uma paixão avassaladora seu trabalho segue impecável. Em alguns momentos a vida dela me lembrou um pouco a vida de uma outra personagem que eu gosto bastante a Meredith Grey (Grey’s Anatomy), pois ela tem uma vida marcada por tragédias, com altos e baixos, mas a sua carreira sempre tem um destaque e sua percepção de vida está sempre pronta para mudar, pronta para se adaptar às novas circunstâncias apresentadas pela vida. 
      Vale a pena conhecer esse romance!

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Arqueiro

Resenha: As Tumbas de Atuan

10 fevereiro


Título: As tumbas de Atuan
Autora: Usrula K. Le Guin
Editora: Arqueiro
Páginas: 160
Ano: 2017

      As Tumbas de Atuan é o segundo volume do Ciclo Terramar, mas dessa vez o protagonista não é Ged (o protagonista do primeiro livro) e sim Tenar. A história dos dois se cruzam, mas é preciso começar essa resenha falando que o foco não é o mago e sim a história em volta da sacerdotisa das tumbas de Atuan. Eu digo isso pois comecei a ler o livro sem ter lido a sinopse e nenhuma resenha a respeito do mesmo, não julguei necessário por se tratar do segundo volume de uma série e foi uma surpresa nos primeiros capítulos ao perceber que o rumo do enredo seria outro. Já adianto dizendo que eu gostei bastante da leitura. Para quem ainda não leu o primeiro volume, pode ler a resenha sem receios pois não contém spoilers.
      Tenar foi tirada do seio familiar aos cinco anos e foi levada para servir aos Inominados como sacerdotisa. Dona de um grande poder, ela sempre recebeu um tratamento especial, mas em troca ela precisou abrir mão até mesmo do próprio nome, passou a ser chamada de Arha. Isso porque ela foi reconhecida como sacerdotisa renascida, aquela que toda vez que morre renasce no corpo de uma criança na mesma noite da morte e essa tradição perdura há muitos anos.
Ao tomar seu lugar como Arha ela recebe todo o conhecimento que foi repassado pelas Arhas anteriores e precisa realizar os cultos e tradições do local, o que envolve tomar conta das tumbas e do labirinto subterrâneo, onde em diversos lugares a luz não pode chegar e onde se escondem também tesouros. 
      No princípio a história parece não fazer tanto sentido, mas a medida Tenar é apresentada e seus pensamentos vão sendo moldados é perceptível o quanto ela quebra tabus tanto da época em que foi escrita quanto nos dias de hoje, passando pelos temas feminismo e o fanatismo religioso. Por vezes, o feminismo que tem como base a igualdade entre gêneros é visto de forma errônea como femismo (superioridade do sexo feminino), se você pensar só um pouquinho provavelmente vai lembrar de algum livro que é dito de acordo com o feminismo, mas que está mais pra femismo. O que a Ursula traz nesse livro é sem dúvidas o feminismo, duas pessoas de sexo oposto se ajudando mutuamente. Já no âmbito da religiosidade temos uma abordagem interessante sobre como a fanatismo religioso pode cegar seus seguidores. 
      O livro tem poucas páginas e pode ser lido com agilidade. Fiquei extremamente satisfeita com a leitura, tanto com as questões abordadas, quanto com o teor da história que casa perfeitamente com a imagem que se forma do mago no primeiro livro da série. Esse livro não se trata apenas de uma fantasia, vai bem além e merece ter o seu devido valor.

      Trechos selecionados:
"(...) Ela não se dera conta de quanto as pessoas eram diferentes, de como enxergavam a vida de modos distintos. Era como se houvesse olhado para cima e, de repente, visto um planeta inteiramente novo, pairando lá no alto, imenso e populoso, bem em frente à janela (...)."

"(...) A maioria das coisas envelhece e perece com o contínuo passar dos séculos. Pouquíssimas são as coisas preciosas que continuam preciosas, ou as histórias que ainda são contadas."

(...) Tudo que eu conheço é a escuridão, a noite subterrânea. E isto é tudo o que realmente existe. É tudo o que há para saber, no fim das contas. O silêncio e as trevas. (...)"

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Resenha

Te conto um Conto - Extensão Justa (Escuridão Total Sem Estrelas)

03 fevereiro

Olá mais uma vez Rascunheiros. Continuando nossa caminhada pela obra de contos de King, hoje vou falar um pouco sobre Extensão Justa, terceiro (e mais curto) do livro Escuridão Total Sem Estrelas. Se você ainda não viu as resenhas dos dois primeiros, a de 1922 está aqui e a de Gigante do Volante aqui. Nesse pequeno conto de menos de 40 páginas encontramos com David Streeter, uma pessoa de vida regular que se encontra dirigindo na marginal do aeroporto de Derry (que revisita gostosa) no fim da tarde para pensar nos seus poucos meses de vida que restam, uma vez que o mesmo tem um câncer muito agressivo. De repente ele se encontra com alguém um tanto peculiar na beira da estrada, sentado numa barraquinha simples de negócios e acaba conversando com o sujeito. Na placa, o anúncio: Extensão justa, preço justo. Depois de uma conversa , Streeter acredita estar falando com um sujeito que fugiu de um hospício, uma vez que este o oferece uma extensão de vida por um preço talvez bastante razoável. Estranhando toda situação deserta (mas sem nada a perder, já que o risco era mínimo), ele fecha o acordo. O preço? Dinheiro. Entretanto o mal não pode simplesmente ir embora, ele precisa ser compensado. E nada de entregar o fardo a um anônimo, você deve repassá-lo a alguém, de preferência que você odeie. A palavra chave deste conto é: Inveja. Inveja pelo fato de o outro ter conquistado o que deveria ser dele, inveja do outro conquistar as coisas somente por meio dele. Sim, Streeter tem uma pessoa para carregar este fardo. Então o acordo começa e Streeter vê toda sua vida (não mais com câncer) dando uma guinada ascendente enquanto a pessoa a quem ele delegou o fardo vê a vida indo ladeira abaixo. Com alguns elementos de muito clichê (do tipo negociador de almas da encruzilhada), este conto trás à tona uma nostalgia de revisitar Derry (que aparece em It), os barrens, ouvir que os Streeter tem um vizinho chamado Denbrough. Além disso, faz uma linha do tempo curiosa, citando fatos para marcar os acontecimentos na vida de Streeter, como a queda das torres gêmeas em setembro de 2001, um furto executado por Winona Ryder (aquela atriz que é mãe do garoto desaparecido no Stranger Things) que foi alardeado nos noticiários, o inicio da relação de Chris Brown e Rihanna, a agressão que Chris Brown cometeu, todos esses fatos relacionados ao livro de forma a contextualizar sutilmente a obra. Apesar de não ser tão bom quanto 1922 e Gigante do Volante, Extensão Justa não é um conto ruim. Talvez incompleto (na minha opinião), mas não ruim. Você, enquanto leitor, cria uma expectativa para o final que não se concretiza, tornando inquietante a forma como a história termina. 
E se você acredita que tem andado numa maré de azar, que tudo tem amaldiçoadamente dado errado para você de um tempo para cá enquanto todo o restante prospera, cuidado: Você pode imaginar por um momento que alguém negociou o próprio fardo com Odabi na beira de uma estrada deserta e o despejou em você, como fez Streeter em Extensão Justa.
É um conto agradável de se ler e em pouco tempo já está liquidado. Na minha opinião, apesar de apresentar aquela tão citada escuridão da alma, neste conto ela é muito menos marcante. 
É isso pessoal, espero que gostem e deixem comentários aí falando o que acharam. Volto em breve pra falar do quarto e último conto deste livro. Até logo.


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DarkSide

Resenha: Labirinto

27 janeiro


Título: Labirinto
Autores: Jim Henson e A.C.H. Smith.
Editora: DarkSide.
Páginas: 272.
Ano: 2016.

      É comum me encantar por histórias de fantasias, com seres incomuns e com a escrita cativante, se tiver esses elementos pode ter certeza que o livro ganhou um novo leitor. Labirinto é exatamente assim. O enredo não é complexo, tem uma leveza, diria um tom de inocência, mas com uma trama gostosa de se acompanhar e que lembra um pouco dos contos de fadas clássicos. 
      Por gostar do filme (diga-se de passagem é muito bom) decidi mergulhar na leitura e, no geral tenho um certo preconceito com livros que se originam de filmes, mas a escrita do A.C.H. Smith é de extrema qualidade que sem dúvidas foi um investimento que valeu a pena. Além disso, o livro conta com cenas extras que foram cortadas do filme.
      Sarah é a protagonista do livro e tem consigo todos os problemas típicos da adolescência, um relacionamento complicado com o pai e a madrasta, dificuldades para lidar com o seu irmãozinho mais novo e o sonho de ser uma atriz assim como a mãe. Leitora nata, tem uma paixão por livros e gosta de mantê-los sempre muito bem organizados. 
      Um certo dia, Sarah estava lendo e interpretando a cena de um dos livros que ela adora na companhia de seu cachorro, vale ressaltar que é a história do Labirinto, quando percebe que está atrasada para ficar com o seu irmãozinho, Tobby, para seu pai e sua madrasta saírem. O que é uma situação que não a agrada muito, como já mencionei o relacionamento dela com a madrasta e o irmãozinho não é bom. Assim que chega em casa tem uma briga com a madrasta, o que deixa Sarah extremamente irritada e para completar o Tobby está bem agitado nesta noite. 
      Após ficar sozinha com o irmão acaba desejando que os duendes levem-o para o mundo deles, para sua surpresa seu desejo é atendido, porém logo se arrepende. Sarah estabelece então um acordo com o rei dos duendes, Jareth, caso ela consiga atravessar o labirinto até o castelo dele dentro de treze horas, ela terá seu irmão de volta, caso contrário, Tobby irá virar um duende. O labirinto é habitado por diferentes seres mágicos e é cheio de mistérios, chegar ao castelo não será uma tarefa fácil, principalmente com Jareth dificultando ainda mais o percurso, mas Sarah é persistente e também não desistirá fácil.
      Sarah é uma protagonista que cativa, mesmo tendo suas crises de adolescente ao início, ela tem uma força e uma coragem fora do comum. Ela é determinada e tenta corrigir os seus erros. Os personagens tem suas peculiaridades e trazem um encanto ainda maior a trama, eles também se envolvem com a Sarah e descobrem mais sobre eles mesmos a medida que vão convivendo com ela, além das amizades que ela constrói. A forma como a personagem amadurece é muito bonita.
      Acredito que essa é uma leitura indicada tanto para crianças quanto para adultos que gostem de fantasia e, como disse um livro indispensável para os fãs do filme que estreou em 1986 e é um clássico que ainda encanta. A edição da Darkside comemora os 30 anos de lançamento do filme e traz ainda como extra, algumas ilustrações de Brian Froud e cópias do diário original do Jim Henson das primeiras ideias de concepção do filme. Vou pular a parte que faço elogios a edição porque nem preciso dizer sobre isso quando se trata da DarkSide.
      Se você já leu o “Labirinto” ou assistiu ao filme deixa nos comentários a sua opinião, se ainda não leu me conta o que achou da resenha, vou adorar saber a sua opinião.

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Suma de Letras

Te conto um Conto - Gigante do Volante (Escuridão Total Sem Estrelas)

21 janeiro


Fala pessoal, estou de volta com essa obra maravilhosa. Nessa resenha vou falar sobre o segundo conto do livro, intitulado Gigante do Volante. Como dito na resenha de 1922 (aqui), primeiro conto do livro, há quem acredite que há momentos em que somos tomados por uma escuridão, momentos esses em que nada mais se manifesta e que o resultado certamente não será bom (ou será?). Em sinopse, Gigante do Volante é um conto de pouco mais de 100 páginas protagonizado por Tessa Jean (Tess), escritora de uma série de livros de mistério investigativo, do tipo Poirot ou Sherlock, mas com um toque de doçura, uma vez que as detetives são um clube de senhoras intitulado Sociedade de Tricô de Willow Grove. Por razões lógicas, a escritora faz palestras do tipo Meet & Greet por uma certa quantia para engordar sua "aposentadoria". Em uma oportunidade que surge muito próxima de casa e bem paga, ela se envolve numa experiência traumática que muda toda a sua vida. Resultado: Tess é estuprada e quase morta (não é spoiler, isso está na sinopse oficial do conto na orelha da capa). O momento de escuridão de Tess começa a partir desse ponto. O que fazer machucada, espancada, estuprada, sem carro no meio do nada?
Antes de mais nada, King naturalmente escreve muito bem quando o assunto é horror da psiquê humana. É possível notar isso em várias das obras dele. Outro ponto interessante é a obstinação pela metalinguagem do autor, abordando em diversas de suas obras a arte pela qual vive, vide Paul Sheldon e Tess, seus personagens escritores que estão dentro de um livro. E o mais curioso é que ele faz isso com muita naturalidade. 
Voltando para a obra e a escuridão de Tess, é importante para mim dizer que por muito tempo nunca entendi porque razão mulheres que sofriam de violência doméstica e/ou sexual preferiam não denunciar, tentavam encobrir. Bom, eu entendia, mas nunca completamente, até ler essa obra. King é preciso sobre todo o julgamento, vergonha, medo, tornando todo o porque claro como o sol no deserto. O que mais assombra lendo este conto (e pelo jeito todos os outros nesse livro) é o quanto é  palpável, possível de acontecer logo ali na casa do vizinho. Toda a confusão, a sensação de se sentir outra pessoa, se sentir suja, totalmente mudada e marcada pelo que aconteceu é algo muito triste de se ver, causa muita empatia no leitor mas é agonizante. Quando a protagonista chega em casa viva depois de tudo, precisa pensar o que vai fazer (ou não fazer nada) sobre o que sabe, o que viu, o que passou. E quando ela se decide pela vingança é eletrizante. É ao mesmo tempo excitante e preocupante, você torce por Tess, mas se preocupa com sua sanidade e com a sua vida. Definitivamente um conto imperdível, em algum ponto toma uma forma muito curiosa de livro de mistério, do tipo que vai se desvendando em partes e nos deixando boquiabertos. Ainda prefiro 1922, um conto mais viciante pela forma como foi escrito. Entretanto Gigante do Volante é uma ótima leitura, rápida e emocionante do início ao fim.

Bom galera, é isso. Contem ai nos comentários o que acharam do conto (Se leram) e da resenha, vamos discutir sobre um pouquinho. Até a próxima.

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Companhia das Letras

Resenha: A Elegância do Ouriço

16 janeiro


Título: A elegância do ouriço
Autora: Muriel Barbery
Editora: Cia das Letras
Páginas:  352

A Elegância do Ouriço foi um dos melhores livros que li em 2017 e talvez um dos mais difíceis de transmitir sua essência através de uma resenha. E mesmo depois de ter encerrado a leitura os personagens ainda continuam vivos dentro de mim, seja pela complexidade ou mesmo pelos aspectos que os tornam únicos. “A Elegância do Ouriço” é um livro totalmente diferente do que estava habituada a ler, me surpreendi e não imaginava que ia gostar tanto.
A ambientação do livro é em prédio situado em uma região nobre de Paris, seus moradores são ricos e esnobes, é nesse meio que a concierge Reneé se encontra. Simples, de origem humilde, ela gosta de levar uma vida pacata. Sempre escondeu seu gosto pela literatura dos moradores do prédio, afinal quem desconfiaria que uma senhora humilde se interessaria por livros tão densos dos mais diversos assuntos? Ela esconde esse segredo debaixo de sete chaves e está sempre observando o comportamento dos moradores do prédio de uma forma ácida e divertida.
Por outro lado, o leitor é apresentado a Paloma, uma adolescente rica que está passando por uma crise existencial e que está em busca de uma razão para seguir a vida. O que ela tem em comum com a concierge? Bem mais do que elas imaginam. As duas possuem uma personalidade bem parecida, são observadoras e estão sempre atentas a tudo que acontece ao seu redor sempre com um olhar crítico e bem posicionado.

O humor presente na leitura é ácido, crítico e muito bem construído. Os personagens adicionam o brilho a obra, os relacionamentos que a primeira vista parecem improváveis são a cereja do bolo. Diversas questões filosóficas são levantadas de forma tão leve, deixando a leitura descontraída e sem excessos. Tudo na medida certa, personagens, ambientação, aspectos filosóficos e sociológicos, críticas e posicionamentos. Um livro que com certeza irá me acompanhar por um bom tempo.
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Resenha

Te Conto um Conto - 1922 (Escuridão Total Sem Estrelas)

12 janeiro


Fala pessoal, vamos falar de terror? 1922 é o primeiro de 4 contos que compõem o livro de Stephen King, Escuridão Total Sem Estrelas.
Você sabe o que é a escuridão? Será que ela tem conexão conosco? Há quem acredite que em certos momentos somos tomados pela escuridão, momentos esses em que nada além da escuridão se manifesta em nós. Alguém pode ate tentar lhe trazer uma 'lanterna', uma 'vela' para te iluminar um pouco, mas dificilmente vai surtir algum efeito. Nessas horas, nós, seres habituados com a luz, nos perdemos em meio a escuridão e quase que certamente o resultado não será bom. King, nessa obra traz a tona momentos da mais completa escuridão na alma das pessoas, impressionando e aterrorizando pela verossimilhança narrativa.
Você que vive hoje num mundo extremamente próximo e conectado deve imaginar que nem sempre o mundo foi assim. É difícil imaginar que até hoje, principalmente nas regiões rurais, coisas estranhas acontecem e ninguém fica sabendo. Imagine antes dos celulares com câmeras serem realidade na maioria das casas, quando pessoas passavam semanas e até meses sem ver outras pessoas. O que não acontecia então em 1922, numa fazenda?
Wilfred é um fazendeiro que vive com a esposa Arlette e o filho adolescente Henry na região de Hemingford (próximo a Omaha), no estado do Nebrasca. Já nessa época, grandes companhias de criação de bovinos e suínos tomavam conta de longos trechos rurais, uma delas a Companhia Farrington. Wilfred vivia das terras que lhe pertenciam, 80 acres de terra. Wilfred era satisfeito com sua vida, até que um dia em 1922, Arlette recebe em testamento um terreno anexo a fazenda onde viviam, totalizando 100 acres, um acréscimo bem vindo às terras da família. Só tinha um problema: A esposa de Wilfred não estava satisfeita de viver ali, ela queria morar na cidade, e para tanto pretendia vender suas terras herdadas e a Companhia Farrington queria comprá-las. Para Wilfred, viver na cidade seria impensável, ele adorava o campo, viver do campo, o sossego daquele lugar. Calmamente sua esposa propõe que ele fique em sua terra, ela venda as dela e se mude com o filho. Entretanto ele também não gostaria de viver ao lado de um matadouro, perto de um rio cheio de restos de animais. A solução? Wilfred decide se livrar de sua mulher. Num momento de escuridão total, Wilfred decide manipular seu filho Henry a lhe ajudar a matar Arlette e esconder o corpo dela. E essa é a origem de todos os problemas. Depois de planejar e executar (tendo alguns problemas), ambos escondem o corpo da mulher e tentam levar a vida, mas nada mais é como antes. O filho, aterrorizado começa a ficar cada vez mais agressivo e arredio, uma vez que não conhece limites após participar de tão covarde ato. O pai, aparentemente começa a ter pesadelos e delírios, sendo atormentado constantemente pelo crime. As autoridades, tentando apurar o ocorrido visitam, investigam e nada encontram. Mas mesmo escapando da lei, a culpa continua martelando na cabeça de Wilfred, junto com os ratos, os malditos ratos. Para completar, os primeiros sinais da crise de 29 que se aproxima começam a afetar a situação financeira dos dois. A única ponta de esperança é a relação da filha do vizinho, mais rico, com Henry. Apesar de mudado, Henry se sente um pouco melhor por ter a companhia da graciosa Shannon Cotterie. Mas a escuridão, por mais que venha e tome posse do juízo das pessoas, quando vai embora sempre deixa marcas incuráveis. Os problemas vão se acumulando até chegar aos limites do suportável para cada um. O fim da história, você descobre quando e onde será logo nas primeiras linhas : abril de 1930, a confissão de Wilf sendo escrita num hotel na cidade de Omaha. Logo ele que tanto lutou para não ir parar na cidade. O relato, contado do ponto de vista de confissão é rico em detalhes (qualidade ímpar do King que dá vida a momentos pitorescos das suas obras) e faz com que a vontade de conhecer o final só cresça ao longo do relato. Não vou contar muito sobre o desenvolvimento do livro porque se você não leu, merece descobrir da forma mais legal: Lendo.
Só queria dizer que até um pouco de Bonnie & Clyde tem nessa história.
Aos curiosos apressados, a Netflix lançou um filme original de mesmo título, cuja atuação de Thomas Jane como Wilfred é excepcional e vale a pena conferir. Entretanto recomendo fortemente ler primeiro e ver depois, afinal o livro é sempre melhor né?
Deixa aí seu comentário, vamos bater um papo sobre essa história sinistra.

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