Resenha: A cor púrpura

12 novembro


Autora: Alice Walker. Editora: José Olympio. Páginas: 336.
Eu nunca havia lido muito a respeito do livro “A cor púrpura” e nem sobre a autora dele, confesso que foi um tiro no escuro. As informações que tinha antes de realizar a leitura era que o livro havia sido premiado no Pulitzer de Literatura e que tinha um filme produzido por Steven Spielberg. Não vi o trailer e nem li a sinopse, embarquei na leitura de coração aberto e logo de cara já estava sofrendo junto com a protagonista.
“A cor púrpura” não é só mais um livro, é o livro. É uma leitura dolorosa em grande parte, sua protagonista é construída em cima de grandes dores, perdas e separações. Cellie é uma mulher negra e semi-analfabeta que mora no sul dos Estados Unidos no início do século XX. Não é necessário ser um perito em história para saber que existia uma segregação racial na região sul na primeira metade do século passado, apesar de não existir mais a escravatura, a discriminação racial era protegida por lei. Por aí, já vemos o absurdo que eram as leis naquela época e tamanha a dificuldade que era a vida em sociedade para os negros. As mulheres não tinham representatividade nenhuma, eram caladas pela voz do marido e por diversas vezes até mesmo agredidas. Mas as dificuldades da vida de Cellie vão além disso, oriunda de uma família desestruturada, abusada pelo próprio pai, separada da sua irmã a única pessoa que a ama e obrigada a se casar com um homem que nem de fato a desejava. Com todos esses percalços na vida seu único refúgio é nas cartas em que escreve para Deus.
A escrita é carregada de regionalismo e pelo fato da protagonista não ter estudado o suficiente comete diversos erros gramaticais. A princípio é difícil se acostumar com a narrativa, mas a medida que vamos conhecendo melhor a protagonista ela vai ganhando voz e se torna fácil entrar no universo dela e a partir daí a leitura flui. Não é uma leitura fácil de digerir, em alguns momentos eu tive que para a leitura e respirar um pouco e só então retomar de onde parei.
Cellie foi abusada de diversas formas, física e psicológica, ela já não confia mais em ninguém, não sente nada em viver, ela só leva a sua vida. Sua realidade começa a se transformar quando conhece Shug Avery, uma mulher totalmente diferente dela, uma cantora, independente e de opinião vai morar em sua casa para se tratar de uma doença que está enfrentando. Shug é amor da vida do marido de Cellie, mas isso pra ela não faz a menor diferença já que não sente nada pelo marido, por outro lado ela nutre uma admiração por Shug e logo uma amizade nasce entre as duas.
Esse é um livro sobre redescobertas, superação e esperança. A trajetória de Cellie, todas as suas dificuldades encontradas em seu caminho árduo e sofrido, torna-a desmotivada e sem esperança. Se reerguer e encontrar motivos para ser feliz não é um processo fácil. E aos poucos a personagem vai ganhando vida, se encontrando e vendo através de outros personagens que precisa reagir, precisa se importar com ela mesma.
Todos os personagens apresentados, principalmente as mulheres, são complexos, reais, palpáveis e bem construídos. O livro mesmo se passando no início do século passado se torna atemporal, por mostrar uma dura realidade, por incentivar o empoderamento e mostrar que as mulheres não devem se calar. Após encerrar a leitura a mensagem transmitida ao longo das páginas continua ecoando em minha mente e provavelmente seguirá por toda a minha vida. Essa é uma leitura que indico a todos, para ser feita de coração aberto e preparado para sentir a realidade de uma personagem tão machucada pela vida, que mesmo desgastada por tudo o que já viveu consegue mesmo após anos se reerguer e encontrar motivos para viver.
Esse título está disponível no Kindle Unlimeted, para quem é assinante é uma ótima oportunidade de leitura.

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